OPINIÃO: Elena, a professora que o tempo não levou

Não me recordo exatamente do ano. Mas a professora Elena certamente se lembra, porque aquele foi o ano em que ela deixou Palmeirópolis para seguir novos caminhos.

Eu cursava a 4ª série, hoje correspondente ao 5º ano, no Colégio Estadual de Palmeirópolis. Era aluno do turno vespertino, e minha professora era Elena Câmara — uma exímia profissional, dessas que não se limitam a ensinar conteúdos, mas que conseguem cativar seus alunos e alunas com o carisma, a delicadeza e a maneira especial de fazer da sala de aula um lugar de afeto.

Certo dia, recebemos uma notícia que, para nós, parecia impossível: nossa professora iria embora. Mudaria de cidade.

Foi um chororô só naquela sala de aula.

Para alguns, talvez fosse apenas a despedida de uma professora. Para mim, não. Aquela notícia foi como levar um soco no estômago. Eu era apaixonado pela minha querida professora Elena. E, quando somos crianças, não sabemos muito bem explicar o tamanho dos sentimentos. Apenas sentimos. E sentimos profundamente.

A partida dela deixou um vazio. A sala continuou, as aulas continuaram, o ano letivo passou. A vida, como sempre, seguiu seu curso.

Professora Elena tomou outros rumos. Depois, eu também.

Os anos passaram. A infância ficou para trás, os caminhos se distanciaram, novas pessoas entraram em nossas vidas e outras tantas ficaram guardadas nas lembranças. De vez em quando, eu recebia alguma notícia de que ela estava morando em Porto Nacional. E era curioso como, mesmo depois de tantos anos, bastava ouvir seu nome para que uma parte daquele menino da 4ª série voltasse à memória.

O tempo tem dessas coisas.

Ele leva pessoas para longe, muda cidades, profissões, sonhos e destinos. Mas há pessoas que ele não consegue levar. Permanecem dentro de nós, guardadas em algum lugar especial da memória e do coração.

Eis que, muitos anos depois, o destino resolveu promover um reencontro.

Não foi por acaso que aconteceu. Foi através de um convite publicado nas redes sociais pela minha amiga, a professora Dra. Rubra, da Universidade Federal do Tocantins, do curso de Letras. Era um convite para assistir à qualificação do mestrado da minha querida professora Elena.

Confesso que, ao perceber que aquela Elena Câmara era a mesma professora que havia marcado minha infância, meu coração bateu diferente.

E hoje estou aqui, assistindo à qualificação do mestrado daquela professora que um dia chorou — ou fez chorar — uma sala inteira de crianças ao anunciar que partiria de Palmeirópolis.

Que satisfação!

Que alegria!

Que emoção reencontrar, ainda que de uma maneira tão especial, alguém que fez parte de uma fase tão bonita da minha vida.

Mas há algo ainda mais bonito nessa história: perceber que o tempo não foi capaz de apagar os sonhos.

Pelo contrário.

Aquela professora que conheci na infância continuou caminhando, estudando, ensinando e sonhando. E agora, tantos anos depois, está diante de mais uma etapa de sua trajetória acadêmica.
Isso me faz pensar que talvez a vida seja mesmo uma grande sala de aula. Nela, aprendemos que nunca é tarde para recomeçar, para estudar, para sonhar e para realizar aquilo que, em algum momento, parecia distante demais.

A idade não deve ser um impedimento para a realização dos nossos sonhos.

Eu sei muito bem o que isso significa.

Também percorri caminhos diferentes até alcançar alguns dos meus sonhos. Formei-me em Direito aos 48 anos. E talvez por isso eu consiga compreender ainda mais profundamente a emoção de ver alguém, depois de tantos anos, diante de uma nova conquista.

Hoje, olhando para aquela professora que um dia entrou na minha sala de aula em Palmeirópolis, percebo que algumas pessoas não passam simplesmente pela nossa vida.

Elas deixam marcas.

Elena deixou uma.

E talvez ela nem saiba o quanto aquela professora da 4ª série significou para aquele menino que ficou triste quando ela foi embora.

A vida nos separou por muitos anos.

Mas o destino, caprichoso, resolveu nos colocar novamente na mesma história.

Desta vez, não em uma sala de aula de uma pequena cidade do Tocantins, mas em um momento de celebração de sua caminhada acadêmica.

E enquanto assisto à sua qualificação, penso naquele menino da 4ª série.

Ele certamente estaria orgulhoso.

E talvez dissesse, com a simplicidade de uma criança:

“Minha professora Elena conseguiu.”

E conseguiu mesmo.

Porque alguns mestres ensinam lições que ficam para sempre.

E algumas despedidas, por mais dolorosas que sejam, não significam o fim.

Às vezes, são apenas uma pausa.

Até que, muitos anos depois, a vida nos permita dizer:

“Que alegria reencontrar você, minha querida professora. O tempo passou, nossos caminhos mudaram, mas a admiração e o carinho continuam exatamente onde sempre estiveram.”

Cláudio Bento, pescador de ilusões.

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